Quando a guerra finalmente chegou à nossa cidade nós nos reuníamos na casa de meu avô materno durante os ataques noturnos. O motivo disso fugia à capacidade de compreensão da criança que eu era na época. A casa não era grande e nem parecia muito segura — os adultos contavam que quando eu ainda era bebê uma ventania destelhara a casa fazendo meus avós passarem semanas dormindo nas casas dos filhos até que o telhado fosse arrumado. Hoje eu entendo que estarmos todos no mesmo local durante os ataques aéreos trazia certa tranquilidade para todos. Certa noite, durante uma semana de ataques mais agressivos nós passamos a noite na cozinha. Eu, aos dez anos, estava ora agachado ora deitado embaixo da mesa de jantar redonda de tampo amarelo e pernas de metal enferrujadas com os ouvidos tapados com as mãos para não ouvir os barulhos do ataque e acompanhava a batalha somente através dos clarões dos tiros e explosões que invadiam a cozinha e tornavam visíveis por segundos a geladeira à esquerda, a pia onde meu avô limpava peixes nos tempos de paz à minha frente e a porta da sala à direita. Talvez por não ouvir e estar focado só no visual ainda lembre de forma tão vívida do clarão amarelo-alaranjado de um avião inimigo que caíra nas árvores atrás da casa e que iluminou a cozinha através da janela inundando o ambiente com a sombra da textura da cortininha bordada que um dia havia sido branca mas há muito amarelara seguido por tios, pais e primos correndo pela cozinha e deitando no chão. Lembro dos únicos minutos em que meu coração não parecia querer pular do peito naquela noite quando meus pais e irmão vieram para baixo da mesa junto comigo, todos encostados na parede e espremidos para ficar os 4 sob o tampo de madeira amarelo que, hoje penso, não nos protegeria das rajadas aéreas caso algum dos tiros rompesse o telhado já castigado de outros combates. Ironicamente não lembro de quando os aviões pararam de passar e saí debaixo da mesa. É como se as páginas da agonia do resto da noite tivessem sido arrancadas do livro. Na próxima recordação estou com meus tios e primos andando em volta da casa vendo a destruição do ataque do dia anterior já com o sol brilhando debochadamente no céu iluminando toda a destruição. Nos dirigimos para o bosque “o avião caiu ali! Vamos ver o que sobrou” um primo falou. Eu não queria ir, a lembrança da luz quente inundando a cozinha na noite passada me dava náuseas. Mas fomos, afinal estávamos com adultos e o ataque cessara há horas. Entramos nas árvores andando devagar, passando por cima de galhos caídos e com as camisetas puxadas acima do nariz para fugir do odor quente do fogo e dos tiros. Víamos, longe no meio das árvores caídas, uma massa desforme verde e conforme nos aproximávamos o avião caído tomava forma. Lembro da pontada no peito quando distingui apoiado nos destroços o corpo do piloto. A pouca coragem que havia na criança que eu era foi-se embora totalmente ao notar que continuávamos indo em direção ao corpo. Lembro do formigamento nas pernas ao ver o macacão azulado sujo e o medo aumentando conforme seguia o corpo do piloto com os olhos até parar no rosto do cadáver e me reconhecer com 23 anos como o piloto morto do avião. Nesse momento a memória perde o ruído característico dos sonhos e ganha uma densa aura negra quando eu deixo de ter 10 anos me vendo morto 13 anos mais velho apoiado num avião no meio do mato e me percebo com os mesmos 23 do cadáver mas deitado numa maca de UTI, descolando com pressa e desespero os eletrodos colados pelo peito, e começo a bater forte e nervoso na lateral metálica da maca até uma moça de cabelos negros que, hoje sei ser a enfermeira Fabiana vir me acalmar ou até um rapaz magro e loiro — que até hoje não sei se existia de fato ou era fruto da alucinação de um corpo em coma induzido — vir segurar a mão com que eu espancava a lateral da maca tentando me perceber o mais longe possível daquele avião e daquele cadáver. Para então enfrentar a agonia paradoxalmente tranquilizadora até o próximo pesadelo começar, eram cinco as histórias que se repetiam num looping que parecia eternamente sufocante. A do piloto morto era só a mais real e desesperadora delas e que, não sei se infelizmente, me recordo com detalhes até hoje, 9 meses após deixar o hospital onde me vi morto apoiado num avião caído, numa guerra que não existe nos livros de história.
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Quando a guerra finalmente chegou à nossa cidade nós nos reuníamos na casa de meu avô materno durante os ataques noturnos. O motivo disso fugia à capacidade de compreensão da criança que eu era na época. A casa não era grande e nem parecia muito segura — os adultos contavam que quando eu ainda era … Ler mais





