Contos

Último retrato

Vez ou outra esbarro em alguma imagem, fotografia, propaganda que faz a minha mente imprimir uma história. O conto que você vai ler foi uma destas impressões que me surgiu depois de ver uma fotografia antiga no meio de algum livro amarelado na casa dos meus pais.

literatura, um conto de Rômulo Vieira
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Laura estava a ponto de desistir da fotografia, já era quase cinco da tarde e ainda faltava arrumar um de seus filhos para irem à missa. Mas seu marido já tinha chamado o fotógrafo e as crianças tinham roupas novas, além do sentimento de urgência que ela sentia fundo em seu coração desde que sentira o cheiro de crisântemos na manhã anterior.

Laura, decidida, agachou-se junto à filha mais nova e terminou de vestí-la com uma bronca quase súplica para que a menina não corresse e não sujasse, pelo amor de Deus, a roupa nova. Laura gritou pela filha mais velha e apressou o marido, que terminava de dar nós nas gravatas dos dois filhos homens, para a varanda da casa, onde o fotógrafo posicionava a câmera. A mulher apoiou sua cabeça no ombro do marido e o envolveu carinhosamente com o braço na altura da cintura. O homem retribuiu o abraço ao mesmo tempo em que ordenava para que as meninas parassem de zombar do irmão mais velho e seu cabelo brilhoso de cera dividido ao meio.

O fotógrafo deu sinal de que estava pronto. Laura ainda sentiu o coração apertar mais uma vez antes de acariciar levemente o ombro da filha mais velha e beijar o ombro do marido para então olhar para a câmera com um sorriso leve que falhava em esconder a angústia em seu peito. O marido estava sério, os meninos tentavam permanecer sérios e alinhados como ele e as meninas sorriam largamente em seus vestidos novos quando o flash disparou.

Semanas mais tarde, quando o fotógrafo voltou com o retrato revelado via-se na imagem as meninas alegres com seus vestidos, os meninos vestidos de hominhos, com ternos e cabelos encerados, e o patriarca sério entre seus cinco filhos. Ao lado do homem, porém, Laura aparecia como que desfocada, as mãos sumiam uma no terno do marido e outra nos cabelos da filha. O marido quis botar a culpa na pouca habilidade do fotógrafo, mas Laura o acalmou. Não havia importância, seu rosto era visível e via-se também o amor que havia naquela família sorridente, grande e de roupas novas para ir à igreja. O que deixava Laura satisfeita com o retrato era também o aperto em seu peito que enfim apaziguara. A foto estava feita, isso a tranquilizava pela primeira vez desde aquela manhã com cheiro de crisântemos semanas antes. Na segunda-feira em que a fotografia foi entregue, Laura demorou-se ao botar os filhos para dormir, um por um os cobriu e os beijou demoradamente na testa. Sorriso triste no rosto foi deitar-se incomodada. Aquela noite seria a última em que botaria seus filhos na cama. Deitara para nunca mais acordar.


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fim

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