Contos

Seria uma vez

Quem nunca olhou uma outra mesa num restaurante e ficou imaginando a história daquelas pessoas? Esse conto nasceu de uma dessas digreções numa mesa de restaurante.

literatura, um conto de Rômulo Vieira
Desenho feito pela inteligência artificial MidJourney baseada em uma frase do conto.
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Era um daqueles restaurantes que os pais deles gostavam. Ele aos 14 e ela aos 13 não tinham direito à opinião nessas escolhas dentro daquelas famílias tradicionais de mamãe que fica em casa, papai que ganha dinheiro e filhinhos que estudam e obedecem – com o adicional de ser uma mocinha que se dá o respeito para ela. Estavam de férias no litoral e os pais colegas da alta sociedade interiorana decidiram se encontrar. As mulheres se gostavam e – até onde era do conhecimento dos adultos – as crianças se detestavam, mas toleravam um ao outro.

Até a organização para sentarem-se à mesa era ordeira. Homens um de frente para o outro nas cadeiras próximas às pontas, mulheres uma de frente para a outra próximas à outra ponta e as crianças no meio dos adultos para que a conversa entre os sexos não se misturasse demais – homens falavam de coisas sérias, óbvio, mulheres falavam frivolidades, com certeza. O irmão mais novo da menina brincava no parquinho sob a vigilância distante e atenta da mãe – o pai ficava “de olho, pode deixar.” As crianças passaram a janta inteira em silêncio. Ele olhava para ela por alguns segundos e logo desviava o olhar prestando atenção à alguma das conversas dos adultos – os assuntos das mulheres o atraíam mais, os homens falavam de carros, dinheiro e problemas no trabalho, só assuntos que o entediavam.

Como era o padrão para as crianças, seus pais não faziam ideia do que se passava na vida dos filhos. Os dois nunca se detestaram, até gostavam de brincar juntos e trocavam aqui e ali alguns torpedos no celular. Ele não sabia se ela já havia dado seu primeiro beijo – já havia beijado três meninos, todos mais velhos, um havia lhe dado uma aliança. Ele começara a se interessar de fato pela garota há alguns meses. Da mesma forma, o interesse crescente dela a fazia se perguntar se ele já dera seu primeiro beijo – havia beijado uma só garota, ex-namorada de seu melhor amigo, com quem teve um namorico curto e logo finalizado pela garota, mais velha e a fim de viver algo além do que um menino mais novo podia oferecer. Mas, a diferença: ela sufocava qualquer indício de interesse que sentisse pelo garoto – que queria,na verdade, achar meio chato e feio.

Numa das olhadelas que ele deu na garota a encontrou bufando de tédio e procurando o irmão com os olhos. Talvez fosse um bom momento para brincar com ela e deixá-la desconcertada mas menos entediada. O garoto empurrou seu pé direito dentro do all star vermelho para baixo e deslizou-o lentamente para frente até sentir que a ponta do tênis havia encostado no adidas roxo da garota. Notou o leve salto que ela deu na cadeira quando sentiu o toque e deslizou o pé mais pra frente até que a ponta do seu dedão estivesse no calcanhar esquerdo da garota e então levantou devagar o pé arrastando a ponta do all star pela panturrilha dela, e a olhando como se pedisse desculpas antecipadas pelos 10…

15…

30 mil reais de dívida que fizera no cartão de crédito da esposa até parar o pé próximo do joelho. Nesse momento a garota o encarou de volta, a diferença se desfez por um instante, e o garoto deixou de ser tão feio. Tornou-se quase interessante. Ele não esperava o retorno do olhar e aquele par de olhos verdes com o miolo castanho olhando no fundo de seus olhos, suplicando perdão por tê-lo abandonado quando descobriu o transtorno bipolar o pegou de surpresa. Gotas de suor escorreram de suas axilas, estalou os dedos da mão esquerda, girou a futura aliança dourada no anelar esquerdo como fazia nervosamente durante as raras mas intensas brigas e respirou fundo enquanto seu coração acelerava nos cinco segundos –  que duraram aproximadamente cinco horas, para ele – em que os olhares das duas crianças viajaram juntos a um futuro possivel. A garota não se desconcertou, fixou o olhar nas pupilas dele e o encarou séria e desafiadora enquanto gotas de suor escorriam entre seu par de seios bem desenvolvidos para a idade – o que inspirava alguns apelidos e insegurança – ainda com os olhares presos um no outro ela mordeu o lábio inferior, não como quem provoca, mas como quem usa os dentes para segurar as lágrimas que insistiam  em lhe borrar a visão ao ler o diagnóstico da doença mental que aprosionaria o marido à uma realidade instável e que a colocava na desconfortável posição de escolher se dividiria ou não aquela prisão com o homem com quem convivia desde a adolescência.

 A insistência do olhar foi o suficiente para que o garoto cogitasse ter conquistado, se não o interesse, a curiosidade da garota. Agora ela também começava a se interessar por ele – apesar de ainda o achar um pouco feio e chato – o que mudaria nos próximos anos. Ele agora estava completamente apaixonado e assim ficaria pelas próximas duas horas – ou nas próximas duas décadas . Ao se despedirem, após o aperto de mão protocolar em quem seria seu sogro e o beijinho em quem mais demoraria a aceitar o casamento da filha  o abraço entre os jovens foi mais demorado e o beijinho de despedida deixou as jovens bocas generosamente mais próximas do que ficariam no dia em que ela decidiria afastar-se da prisão mental que seria a morada definitiva do marido.


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fim

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